Daí entramos pra falar com os professores munidos de uma música do Gabriel, O Pensador. Calma, tô falando de uns 17 anos atrás e o nome da música era “Estudo Errado”.

A coisa toda é porque a gente tinha ganhado o grêmio da escola e queríamos revolucionar o ensino público brasileiro, simples assim, e nosso embasamento era a letra do rapper carioca, simples assim, e a gente marcou uma reunião com todos os professores da escola para divulgar a nossa intenção, simples assim.

O jovem recém-chegado ao mundo jovem é muito engraçado, ele acha que tudo é possível e tudo é novidade. Me lembro que no ano anterior eu cabulei aula com um amigo e ao encontrar uma ratazana boiando a gente acreditou mesmo que encontramos no Parque do Carmo uma nova espécie de bicho, até chamamos o guarda (que depois nos expulsou).

Bom, o que a gente queria naquele fundão de zona leste era algo que a gente não conseguia explicar direito, mas era tipo “não queremos decoreba”. Queríamos algo como o Rogério, professor de química, fazia. O Rogério tinha um estilo que depois eu fui descobrir era chamado “estilo professor de cursinho”, que eu não sei se isso é tido como pejorativo entre os pedagogos. Ele inventava umas músicas, fazia umas piadas legais e umas experiências, e não ficava pesando com coisa de notas e critérios sem sentido de avaliação. Quem disse que tudo tem que ser tão chato se a própria química é algo divertido? Saíamos com essa todas as vezes.

Lá na escola o sistema era basicamente: S e NS – Satisfatório e Não Satisfatório.

Bom, lá estavam nos observando os educadores com aquela cara de quem foi chamado quinta às 14h pra uma simulação de incêndio com André o Brigadista Mais Animado e Bem Disposto do Prédio, aquele que realmente leva a sério o seu trabalho mesmo tendo apenas dois extintores vazios sobrando no estoque. No caso, nós éramos André. E eram 14h de uma quinta sim.

A primeira a cortar nossa onda foi a professora de Matemática, prof. Matsumi.

“Perda de tempo” e foi embora totalmente NS com a nossa apresentação.

Em seguida, algumas tossidas e algumas torcidas de pescoço e talvez alguns roncos, percebi que a prof. Jéssica, de Português, tinha aquele sorriso suportado pelo indicador e o polegar, o que significa “estou prestando atenção, hmmm”.

Tocamos a música do Gabriel e acho que nessa hora eu me toquei que aquilo era um pouco constrangedor, mas fiz a minha melhor cara de “isso só é constrangedor propositalmente porque somos gênios excêntricos”.

Terminou a música a prof. Jéssica levanta a mão, o que achei respeitoso. Então ela com a maior assertividade e tranquilidade pedagógica destruiu os nossos sonhos.

“Puxa, acho muuuito legal o que vocês – tentaram – fazer, mas assim, isso não tem nada a ver com a nossa realidade. O Gabriel, – O Pensador – é um playboy nascido de classe média. As coisas podem mudar um dia, mas quando vocês crescerem irão descobrir como as coisas são difíceis.”

E aí meio que me toquei sobre umas coisas da letra. Realmente, esse negócio de ter medo de mostrar o boletim porque os pais iam colocar de castigo, isso aí era muito problema de boy. Era coisa estilo a série Confissões de Adolescente e os Anos Incríveis. Engraçado lembrar disso agora, mas eu realmente tinha inveja desse tipo de problema. Boletim? Isso me soava muito chique. Nota 10? No fundão era S ou NS e pronto, sem querer foi algo vanguarda já que hoje o mundo é “dentro” ou “fora” polegar pra cima ou pra baixo, sim ou não. O dia que não fui pra escola porque um moleque foi buscar uma arma pra me matar, esse tipo de coisa não é “Confissões de Adolescente”, e muito menos eram “Anos Incríveis”. Ou eram?

A professora não estava errada, nem nós estávamos na nossa inquietação. Nos faltaram referências e um pouco de sal na língua, sabe? O sal na língua. Quero dizer, “aquele gerador de sede”, tá me entendendo? Todo mundo pode ter aquele sal na língua. Acho que isso entendi depois de começar a escrever. A gente foi lá na cara dos professores pra levar uma visão de frustração ao invés de provocamos um desejo. Produzimos babas de sono ao invés de saliva de sede. Obviamente não era o papel da pivetada animada e bem disposta ter tudo tão elaborado, isso sou eu adulto falando sobre aquele dia. Inclusive descobri que de fato as coisas são difíceis. Aquele sorriso complacente apoiado pelo indicador sabia mesmo das coisas. Coisas que também podem mudar um dia.

Além disso, descobri que o mundo também é feito de Não Satisfatórios. O que é o desejo, afinal de contas?