nasci com o futuro, foi no ano de 1985.
meu pai veio do Ceará e trabalhou nas fábricas Maluf
tomava banho com a água que saía direto do cano
foi seu primeiro emprego em São Paulo.

Minha mãe cresceu em Alfenas,
E aqui trabalhou como doméstica
antes de nós ela passeava
e assistia lutas livres perto da Tv Tupi.

No jardim Etelvina tínhamos chiqueiro
no Belenzinho tínhamos um quarto pra 6
joguei fora os presentinhos de minha mãe
porque não tinha espaço no corredor.

Desses dias eu me lembro
Da propaganda de caldo Knorr
do cão bravo chamado Maguila
e do Programa do Bolinha.

da TV Philco preto e branco
da passar as tardes no Profic
de escolher o Changeman preto
e o dia que minha irmã caiu no bueiro.

Um dia me disseram que beiço grande era feio
e que éramos feios
e inclusive pobres
e que seríamos sempre assim.

Para usar o computador coletivo
esperava até duas horas no infocentro
Curiei as coisas do mundo
e tive vontades além das antigas

Um caroço aposentou minha mãe
meu pai fez limpeza na BMW
meu irmão fez bico de segurança
e virei cobrador de telemarketing.

O mundo ao nosso redor foi mudando
mais difícil inteirar o aluguel
ninguém quer ser fiador de pobre
ainda mais dos beiços grandes.

Os livros me deram mais parentes
me ensinaram a rir da desgraça
me mostraram que as coisas
pra ter nome é só preciso escrever.

Vencemos a barreira dos 3 cômodos
vencemos inflação e ameaça de despejo
vencemos os dias em que só comemos fubá
o álcool, a diabetes e a epilepsia.

No dia em que virei escritor
minha mãe abraçou meu livro
como se fosse 1985
o dia em que nasci com o futuro.

Hoje há menos mundo pra nós
filhos da enxada e da manta de pano
de lutas, dias e madrugadas
preces de agradecimento pela mistura.

Uma noite cresce dentro da noite,
nunca vi noite mais triste
e olha que enterrei três cachorros
um deles foi no natal.

Se o que antes era sol de domingo
virou lampejo dum cadinho de dia
que lampejo seja o nosso quintal
basta existir para irradiar.