Marmitas Frias

de Ricardo Terto

Autor: ricardoterto

Pente Fino

O céu é um lugar muito longe então, respondi quando ela me contou que chegando lá não dava mais pra voltar.

Não existe ex-mãe. Pensei nisso muito tempo depois. Quando lembrei que pente fino no couro da cabeça dói.
Ou seja,
disse a professora,
é piolho.

Essas coisas só acontecem, quando eu perguntei de onde surgiam os piolhos, essas coisas só acontecem, me respondeu.

Como assim um piolho só acontece? 
Só acontece.
Mas e depois?
Não acontece mais.

Acontece e depois não acontece mais. 
Daí fiquei um tempo inventando todo dia uma dor nova, pra ficar com a cabeça no colo, ouvindo conversa. 
– Quando a gente morre vai pra onde?
– Pro céu.
– Ah, mas se a pessoa quiser voltar até dá, né.
– Volta nunca não, deu a hora é tchun, fica lá.
– O céu é um lugar muito longe então. 
– É, e é mesmo.
– Piolho quando morre vai pro céu?
– Não, vai pro pente.

E a gente riu.

…o pente é mais perto pelo menos.

Acontece que a gente não é piolho, um dia cê vai entender, finalizou. 
E levantamos, cada um no seu tempo.

No meu tempo eu descobri que tem vezes que a gente até que é igual piolho, (acontece e depois não acontece mais).
Menos mãe.
Mãe continua acontecendo mesmo quando deixa de acontecer.

Não satisfatório

Daí entramos pra falar com os professores munidos de uma música do Gabriel, O Pensador. Calma, tô falando de uns 17 anos atrás e o nome da música era “Estudo Errado”.

A coisa toda é porque a gente tinha ganhado o grêmio da escola e queríamos revolucionar o ensino público brasileiro, simples assim, e nosso embasamento era a letra do rapper carioca, simples assim, e a gente marcou uma reunião com todos os professores da escola para divulgar a nossa intenção, simples assim.

O jovem recém-chegado ao mundo jovem é muito engraçado, ele acha que tudo é possível e tudo é novidade. Me lembro que no ano anterior eu cabulei aula com um amigo e ao encontrar uma ratazana boiando a gente acreditou mesmo que encontramos no Parque do Carmo uma nova espécie de bicho, até chamamos o guarda (que depois nos expulsou).

Bom, o que a gente queria naquele fundão de zona leste era algo que a gente não conseguia explicar direito, mas era tipo “não queremos decoreba”. Queríamos algo como o Rogério, professor de química, fazia. O Rogério tinha um estilo que depois eu fui descobrir era chamado “estilo professor de cursinho”, que eu não sei se isso é tido como pejorativo entre os pedagogos. Ele inventava umas músicas, fazia umas piadas legais e umas experiências, e não ficava pesando com coisa de notas e critérios sem sentido de avaliação. Quem disse que tudo tem que ser tão chato se a própria química é algo divertido? Saíamos com essa todas as vezes.

Lá na escola o sistema era basicamente: S e NS – Satisfatório e Não Satisfatório.

Bom, lá estavam nos observando os educadores com aquela cara de quem foi chamado quinta às 14h pra uma simulação de incêndio com André o Brigadista Mais Animado e Bem Disposto do Prédio, aquele que realmente leva a sério o seu trabalho mesmo tendo apenas dois extintores vazios sobrando no estoque. No caso, nós éramos André. E eram 14h de uma quinta sim.

A primeira a cortar nossa onda foi a professora de Matemática, prof. Matsumi.

“Perda de tempo” e foi embora totalmente NS com a nossa apresentação.

Em seguida, algumas tossidas e algumas torcidas de pescoço e talvez alguns roncos, percebi que a prof. Jéssica, de Português, tinha aquele sorriso suportado pelo indicador e o polegar, o que significa “estou prestando atenção, hmmm”.

Tocamos a música do Gabriel e acho que nessa hora eu me toquei que aquilo era um pouco constrangedor, mas fiz a minha melhor cara de “isso só é constrangedor propositalmente porque somos gênios excêntricos”.

Terminou a música a prof. Jéssica levanta a mão, o que achei respeitoso. Então ela com a maior assertividade e tranquilidade pedagógica destruiu os nossos sonhos.

“Puxa, acho muuuito legal o que vocês – tentaram – fazer, mas assim, isso não tem nada a ver com a nossa realidade. O Gabriel, – O Pensador – é um playboy nascido de classe média. As coisas podem mudar um dia, mas quando vocês crescerem irão descobrir como as coisas são difíceis.”

E aí meio que me toquei sobre umas coisas da letra. Realmente, esse negócio de ter medo de mostrar o boletim porque os pais iam colocar de castigo, isso aí era muito problema de boy. Era coisa estilo a série Confissões de Adolescente e os Anos Incríveis. Engraçado lembrar disso agora, mas eu realmente tinha inveja desse tipo de problema. Boletim? Isso me soava muito chique. Nota 10? No fundão era S ou NS e pronto, sem querer foi algo vanguarda já que hoje o mundo é “dentro” ou “fora” polegar pra cima ou pra baixo, sim ou não. O dia que não fui pra escola porque um moleque foi buscar uma arma pra me matar, esse tipo de coisa não é “Confissões de Adolescente”, e muito menos eram “Anos Incríveis”. Ou eram?

A professora não estava errada, nem nós estávamos na nossa inquietação. Nos faltaram referências e um pouco de sal na língua, sabe? O sal na língua. Quero dizer, “aquele gerador de sede”, tá me entendendo? Todo mundo pode ter aquele sal na língua. Acho que isso entendi depois de começar a escrever. A gente foi lá na cara dos professores pra levar uma visão de frustração ao invés de provocamos um desejo. Produzimos babas de sono ao invés de saliva de sede. Obviamente não era o papel da pivetada animada e bem disposta ter tudo tão elaborado, isso sou eu adulto falando sobre aquele dia. Inclusive descobri que de fato as coisas são difíceis. Aquele sorriso complacente apoiado pelo indicador sabia mesmo das coisas. Coisas que também podem mudar um dia.

Além disso, descobri que o mundo também é feito de Não Satisfatórios. O que é o desejo, afinal de contas?

Lampejo

nasci com o futuro, foi no ano de 1985.
meu pai veio do Ceará e trabalhou nas fábricas Maluf
tomava banho com a água que saía direto do cano
foi seu primeiro emprego em São Paulo.

Minha mãe cresceu em Alfenas,
E aqui trabalhou como doméstica
antes de nós ela passeava
e assistia lutas livres perto da Tv Tupi.

No jardim Etelvina tínhamos chiqueiro
no Belenzinho tínhamos um quarto pra 6
joguei fora os presentinhos de minha mãe
porque não tinha espaço no corredor.

Desses dias eu me lembro
Da propaganda de caldo Knorr
do cão bravo chamado Maguila
e do Programa do Bolinha.

da TV Philco preto e branco
da passar as tardes no Profic
de escolher o Changeman preto
e o dia que minha irmã caiu no bueiro.

Um dia me disseram que beiço grande era feio
e que éramos feios
e inclusive pobres
e que seríamos sempre assim.

Para usar o computador coletivo
esperava até duas horas no infocentro
Curiei as coisas do mundo
e tive vontades além das antigas

Um caroço aposentou minha mãe
meu pai fez limpeza na BMW
meu irmão fez bico de segurança
e virei cobrador de telemarketing.

O mundo ao nosso redor foi mudando
mais difícil inteirar o aluguel
ninguém quer ser fiador de pobre
ainda mais dos beiços grandes.

Os livros me deram mais parentes
me ensinaram a rir da desgraça
me mostraram que as coisas
pra ter nome é só preciso escrever.

Vencemos a barreira dos 3 cômodos
vencemos inflação e ameaça de despejo
vencemos os dias em que só comemos fubá
o álcool, a diabetes e a epilepsia.

No dia em que virei escritor
minha mãe abraçou meu livro
como se fosse 1985
o dia em que nasci com o futuro.

Hoje há menos mundo pra nós
filhos da enxada e da manta de pano
de lutas, dias e madrugadas
preces de agradecimento pela mistura.

Uma noite cresce dentro da noite,
nunca vi noite mais triste
e olha que enterrei três cachorros
um deles foi no natal.

Se o que antes era sol de domingo
virou lampejo dum cadinho de dia
que lampejo seja o nosso quintal
basta existir para irradiar.

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